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domingo, 13 de junho de 2021

Poemas de Augusto dos Anjos

No vídeo do nosso canal que fizemos sobre Augusto dos Anjos e o seu livro Eu, há a leitura de oito poemas. Disponibilizamos esses poemas aqui: 

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia, análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

 

O deus-verme

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme - é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

 

A eterna mágoa

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda! 


Versos íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

 

O poeta do hediondo

Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro essa sonda!
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto...

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto! 

 

Debaixo do tamarindo

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
Dos inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
Minha sombra há de ficar aqui! 


Vozes da morte

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!

Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte, ainda teremos filhos!

 

Contrastes

 A antítese do novo e do obsoleto,
O Amor e a Paz, o ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,
Às alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!...

 

A árvore da serra

- As árvores, meu filho, não tem alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma!...

- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra! 


sexta-feira, 11 de junho de 2021

Augusto dos Anjos e o livro Eu - Vídeo novo no canal

O novo vídeo no canal Isto Poesia é sobre Augusto dos Anjos e seu livro Eu, lançado em 1912, com as edições a partir de 1919 se chamando Eu & Outras Poesias.

Assista completo abaixo:


Para quem quiser acesso ao material referido no vídeo, seguem os links:

Artigo "O lugar de Augusto dos Anjos na poesia brasileira", de Nara Marley Aléssio Rubert (clique para baixar)

O livro em PDF "Eu e outras poesias"

Para Kindle temos por R$ 1,99 o livro "Obra Poética Completa: 'Eu e outras poesias' e a obra imatura"


No vídeo há a leitura dos seguintes poemas:

Psicologia de um vencido, O deus-verme, A eterna mágoa, Versos íntimos, Debaixo do tamarindo, Vozes da morte, Contrastes e A árvore da serra. Para acessar apenas esses poemas, clique aqui.

 

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- Resumo do artigo da professora Nara Marley:

É uma análise sobre a controversa classificação do poeta Augusto dos Anjos que oscila entre o Simbolismo, Parnasianismo, Romantismo, Cientificismo, Modernismo e até mesmo Surrealismo, a partir de aspectos de sua poesia que apontam para as diversas tentativas de enquadramento de sua obra. Acrescenta-se ainda que sua carreira de professor e escritor, bem como a publicação de sua única obra, “Eu”, se deu no período chamado Pré-Modernismo, no início do século passado. A partir disso, avaliam-se alguns traços da sua época, da estética literária de seu tempo e a maneira como isso se mostra ou não em seus poemas. Há aspectos insistentes na obra de Augusto dos Anjos que indicam uma direção para sua leitura: a obsessão pela decomposição, o “irrealizado”, a combinação de expressões eruditas com expressões ditas de mau-gosto e, muito especialmente, a morte.